sábado, 17 de janeiro de 2026

A Liberdade como Dom de Deus: O Alerta Profético de Dom Adair Guimarães

Em um tempo marcado por ruídos ideológicos e polarizações que muitas vezes obscurecem a clareza do Evangelho, a voz de um pastor se levanta não apenas como um guia administrativo, mas como uma sentinela da alma. Dom Adair José Guimarães, Bispo da Diocese de Formosa-GO, trouxe recentemente uma reflexão profunda e necessária sobre um dos bens mais preciosos concedidos por Deus à humanidade: a liberdade. Para o cristão, a liberdade não é apenas um conceito jurídico ou político, mas uma condição espiritual intrínseca à nossa dignidade de filhos de Deus. Como o próprio bispo enfatizou de forma categórica: "Perder a liberdade é muito triste".

O Mistério da Liberdade e as Sombras dos Regimes Diabólicos

A teologia cristã ensina que fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, por isso, fomos dotados de livre-arbítrio. É na liberdade que o ser humano pode, verdadeiramente, amar a Deus e ao próximo. Quando essa liberdade é cerceada, a própria imagem de Deus no homem é agredida. Por essa razão, a Igreja, ao longo de sua história e através de seu Magistério, sempre se posicionou contra sistemas que oprimem a consciência e a dignidade humana.

Dom Adair recorda que o grito da Igreja contra o comunismo, o fascismo e o nazismo não é uma questão de preferência partidária, mas uma defesa da fé. Segundo o bispo, estes são "sistemas, regimes diabólicos, humanos, que a primeira coisa que fazem é castrar a liberdade das pessoas". O termo "diabólico", aqui, não é usado de forma leviana; ele descreve aquilo que divide e destrói a harmonia da criação, substituindo a soberania de Deus pelo controle absoluto do Estado ou de uma ideologia sobre o indivíduo.

A Cegueira Ideológica e o Silêncio dentro da Igreja

Um dos pontos mais tocantes da fala do prelado é a sua observação sobre o silêncio e a omissão de muitos fiéis, e até de membros da hierarquia, diante de ameaças contemporâneas como o Foro de São Paulo e as ditaduras que ainda assolam diversas nações. "Eu fico impressionado como tem tanta gente, inclusive dentro da Igreja, que não tem coragem de se posicionar contra essas coisas", lamentou Dom Adair.

A fé exige coragem profética. O bispo nos alerta para uma realidade dolorosa: a cegueira ideológica. Muitas vezes, o fiel permite que as ideias aprendidas "lá na universidade" ou em "grupos de políticos" sobreponham-se à Verdade revelada. Essa cegueira impede que se enxergue o óbvio da história: ditaduras e ideologias totalitárias não trazem bem-estar, mas sim "fome, miséria e sofrimento". É um chamado à honestidade intelectual e espiritual olhar para os frutos dessas árvores ideológicas e reconhecer que eles são amargos para a dignidade humana.

A Coerência entre a Fé e a Vida Pública

A Doutrina Social da Igreja oferece um norte seguro para a atuação do católico no mundo. Não se pode separar a oração da prática política e social. Dom Adair enfatiza que a conversão cristã exige uma "coerência" fundamental. Como pode um católico, que professa a fé no Deus da Vida e da Liberdade, apoiar partidos ou projetos que promovem o aborto ou que buscam o controle unipartidário e absoluto da sociedade?

"Se eu, como católico, fico apoiando partidos abortistas, partidos contra a liberdade, partidos que querem ser únicos... é preciso de conversão", alerta o bispo. A fé não é um adereço de domingo, mas uma luz que deve guiar todas as nossas escolhas, inclusive o voto e a militância. Apoiar sistemas que pretendem eliminar o obstáculo do confronto de ideias é, em última análise, trair o Evangelho que nos libertou. É uma contradição viver como se a ideologia fosse maior que Cristo. Dom Adair relata com profunda tristeza ter ouvido de alguns: "eu prefiro a minha ideologia do que Jesus Cristo". Para um pastor, não há dor maior do que ver uma ovelha trocar a Rocha Eterna por areias movediças de pensamentos humanos.

A Conversão como Graça e Transformação

O caminho para superar essas dependências ideológicas não é fruto apenas do esforço humano ou da retórica política. A solução é teológica: "A conversão é graça". É necessário permitir que a oração não seja um rito mecânico, mas um encontro transformador. Dom Adair nos convida a deixar que a oração "limpe a nossa mente de toda espécie de crueldade e dependência destas realidades tão tristes".

A verdadeira conversão nos coloca diante de Deus com humildade e perseverança. Ela nos devolve a clareza mental e a liberdade interior para seguir a Cristo acima de qualquer bandeira terrena. Afinal, a liberdade cristã é aquela que nos permite dizer "sim" ao Reino de Deus e "não" a tudo o que escraviza o homem.

Viver como quem Acredita

A mensagem de Dom Adair José Guimarães é um apelo à vigilância. Não basta dizer que acredita; é preciso viver como quem acredita. A liberdade é um dom que deve ser guardado com zelo, pois sua perda é a maior das tristezas humanas.

Que este alerta pastoral ecoe em nossos corações, levando-nos a uma profunda revisão de nossas convicções e alianças. Que busquemos na Eucaristia e na oração a força para sermos coerentes com a Doutrina Social da Igreja, defendendo a vida desde a concepção até o seu fim natural e protegendo a liberdade de consciência contra todos os "regimes diabólicos" que tentam ocupar o lugar que pertence somente a Deus. Pois, como nos ensina o Apóstolo, "foi para a liberdade que Cristo nos libertou" (Gl 5,1).