Por Douglas Lima
É com profunda reverência e coração aberto que nos debruçamos sobre a Instrução Libertatis Nuntius, um farol de sabedoria e discernimento oferecido pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1984, pelo seu presidente, o então Cardeal Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI. Este documento, cujo título se traduz como "O Mensageiro da Liberdade", ´é um convite amoroso e solene à reflexão sobre alguns aspetos da chamada "Teologia da Libertação". É uma bússola que busca guiar o barco da fé através de águas por vezes turbulentas, garantindo que o seu destino seja sempre a verdadeira liberdade em Cristo.
O Chamado de Deus à Libertação Verdadeira
Desde o Êxodo, a história da salvação é uma narrativa ininterrupta da intervenção de Deus em favor dos oprimidos. O Senhor é Aquele que ouve o clamor do seu povo e desce para o libertar (Ex 3, 7-8). Esta é uma verdade fundamental da nossa fé, e a sensibilidade do coração cristão perante a injustiça e o sofrimento dos pobres é uma prova da sua autenticidade.
A Libertatis Nuntius reconhece e louva este impulso generoso e urgente que move muitos crentes a dedicar as suas vidas à causa da libertação. Não se pode ser cristão e ignorar o grito de dor do nosso irmão. A Igreja, Mãe e Mestra, ecoa o chamado profético à justiça e à caridade. É uma vocação sagrada lutar pela dignidade humana, pois todo homem, mulher e criança é imagem de Deus.
No entanto, a Instrução adverte com caridade que o caminho da libertação deve ser iluminado pela luz da Revelação e guiado pela Sã Doutrina. A libertação que o Evangelho anuncia é integral: atinge o homem na sua totalidade — alma e corpo, vida pessoal e social. Não é meramente um programa político ou económico, mas o dom da Redenção oferecido por Jesus Cristo.
A Liberdade que Cristo Oferece
A verdadeira liberdade, recorda-nos a Instrução, não é a ausência de restrições ou a satisfação de todas as necessidades materiais, mas a liberdade do pecado, que é a raiz de toda a escravidão. "Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado" (Jo 8, 34). Jesus veio para nos libertar desta prisão interior, oferecendo-nos o dom da graça e a filiação divina.
A Libertatis Nuntius manifesta a sua preocupação quando a busca pela libertação temporal se torna absoluta e, ao fazê-lo, corre o risco de ofuscar a libertação espiritual e eterna. Se a esperança cristã se reduz a uma utopia puramente terrestre, perde a sua seiva vital e a sua força transcendente. A nossa esperança está em Cristo Ressuscitado, e é a partir desta certeza que a luta pela justiça aqui na Terra ganha o seu sentido mais profundo e inabalável.
A libertação da escravidão do pecado e da morte realizada pela Cruz e Ressurreição de Cristo é a fonte e o fundamento de toda a libertação humana.
Os Desafios do Caminho: Discernimento Necessário
O cerne da reflexão da Libertatis Nuntius reside no discernimento em relação à utilização de conceitos e métodos que, embora venham de fora do patrimônio da fé, são adotados por algumas vertentes da Teologia da Libertação.
A Instrução alerta especificamente para a incorporação acrítica de elementos do marxismo na análise teológica e social. Não se trata de uma crítica à preocupação com a pobreza, mas sim à estrutura filosófica e ideológica subjacente a certas análises.
1. A Redução da Fé à Política:
A fé cristã é uma relação pessoal e comunitária com Deus, revelado em Jesus Cristo. A Instrução aponta o perigo de reduzir o Reino de Deus a um mero projeto político ou social que se realiza unicamente através da luta de classes.
• Quando o êxodo bíblico é interpretado primariamente como um ato de revolução social, e não como uma ação salvífica de Deus.
• Quando a pessoa de Jesus Cristo é transformada num mero líder político ou revolucionário, e a sua divindade e o mistério da Redenção são minimizados ou ignorados.
2. O Conceito de "Luta de Classes":
Um dos pontos mais sensíveis é a aceitação da "análise da luta de classes" como o motor da história. A Libertatis Nuntius recorda que a Igreja não nega a realidade da opressão e dos conflitos, mas a visão cristã da humanidade ensina que o motor da história é o amor, e a força transformadora é a caridade.
A luta de classes, segundo a Instrução, tende a polarizar e a negar a fraternidade universal que Cristo nos ensinou. O caminho cristão para a justiça não é a dialética da violência, mas sim a conversão do coração e o sacrifício de si mesmo pelo próximo, incluindo os que nos parecem "inimigos". A verdadeira libertação passa pela Reconciliação, não pela perpetuação do ódio e da divisão.
3. A Substituição da Doutrina:
Outro aspeto fundamental é o alerta para a desvalorização da Tradição e do Magistério da Igreja. A Teologia da Libertação, em algumas das suas expressões, tendeu a colocar a "práxis" (a ação revolucionária) como o critério exclusivo da verdade. A fé, a Revelação e a Doutrina seriam re-interpretadas e até substituídas pela análise social.
A Instrução reafirma que a Teologia deve ser sempre a "fé em busca de inteligência" (fides quaerens intellectum), e não a ideologia em busca de justificação religiosa. A Verdade não muda ao sabor das circunstâncias históricas; ela é eterna e revelada em Cristo.
